Torcedor, isso pode ser o começo do fim do futebol brasileiro como a gente conhece. E o pior é que a gente vai assistir de camarote, torcendo pra estar errado. A mudança da CBF nos estrangeiros, o rombo bilionário dos clubes e o fim das bets se conectam numa sequência que pode botar o futuro do nosso futebol em xeque. Espero de verdade que essa previsão minha não seja real, porque, se for, o futebol brasileiro corre sérios riscos de acabar.
Hoje eu vou desabafar. Já carregava esse pessimismo antes mesmo de descobrir as mudanças da CBF pros estrangeiros e pra base — e o que eu vi depois só confirmou. Some a isso as decisões ridículas dos clubes e o governo caminhando pra acabar com as bets de forma abrupta, sem plano nenhum pro depois. Sou a favor do fim das bets, pelo bem da população. Mas não dá pra fingir que essa conta não vai estourar em cima do próprio futebol. Tenho o privilégio de torcer por um dos clubes mais organizados do país, que provavelmente vai sentir menos esse tranco que os outros que eu vou citar aqui.
1. As mudanças da CBF
No dia 21/09/2026, CBF e clubes aprovaram mudanças nos horários dos jogos. Tanto faz, não é o ponto.
O ponto é a limitação de estrangeiros — e sinceramente, é foda ver a própria CBF remar contra tudo que ela vinha construindo nos últimos anos. Hoje são nove estrangeiros por partida. Em 2027 caem pra oito, sete em 2028, seis em 2029, cinco em 2030.
A desculpa é melhorar o jogador brasileiro, principalmente o Sub-23. Beleza, o dado existe: a idade média da Série A subiu de 27,3 anos em 2021 pra 28,5 em 2026, a maior entre seis ligas analisadas. Só que resolver isso cortando estrangeiro é a solução mais preguiçosa que eu já vi. Não resolve a falta de lateral, não resolve carência nenhuma — só empurra jovem despreparado pra posição que ele ainda não tá pronto pra ocupar. E o brasileiro bom que sobrar, se não for vendido pra Europa, vai custar uma fortuna aqui dentro, porque menos estrangeiro significa mais concorrência pelos mesmos nomes.
Quer resolver de verdade? Investe pesado na base. A cadeia é simples: captação → estrutura → alimentação → educação → preparação física → formação técnica → competição → profissionalização → valorização → venda → reinvestimento. Tudo começa dentro do clube. A CBF tem poder pra criar incentivo real pra esse investimento e escolheu mexer só na ponta final da corda, fingindo que resolveu o problema. Diminuir estrangeiro e empurrar jovem pro time não forma ninguém — só maquia estatística.
2. O fim das bets
Enquanto isso, a maioria dos clubes nem tá pensando em investir — tá tentando não afundar. Em 2025, os 20 times da Série A acumularam R$ 17,3 bilhões em dívidas contra R$ 14,3 bilhões arrecadados. Isso não é desorganização pontual, é o sistema inteiro capenga.
O Corinthians fechou o ano com R$ 2,7 bilhões de dívida bruta e déficit de R$ 143,4 milhões. O Vasco tá pior ainda: R$ 1,3 bilhão de dívida, com uma projeção que mostra R$ 500 milhões de receita contra R$ 800 milhões de despesa — precisou estruturar um acordo de investimentos de R$ 3,1 bilhões só pra tentar respirar. E olha que o São Paulo é o "exemplo bom": fechou com R$ 858 milhões de dívida, reduziu R$ 110 milhões e ainda deu superávit de R$ 56 milhões. Time tecnicamente em decadência esportiva pagando o preço de não ter deixado a bola de neve crescer. É isso que "administração responsável" custa hoje no Brasil.
E é justamente em cima desse buraco que o governo quer puxar o tapete. Em 2025, as bets colocaram R$ 1,03 bilhão em patrocínio só na Série A, 66% a mais que em 2024. Olhar a média até disfarça a dependência: o Flamengo tinha contrato de R$ 268 milhões/ano com a Betano — 13,6% da receita do clube, sozinho — e o Corinthians renovou com a Esportes da Sorte por R$ 150 milhões/ano, podendo chegar a R$ 200 milhões com bônus. Isso não é trocado, é sustento.
Eu apoio o fim das bets, e sabe por quê? Porque o problema é real pra sociedade. Mas apoiar a causa não me impede de enxergar que tirar esse dinheiro de forma abrupta, sem transição nenhuma, vai quebrar clube que já tá no limite. Vai sobrar vender jovem da base às pressas pra fechar caixa, vai sobrar inflacionar ainda mais o mercado interno, e vai faltar exatamente o dinheiro que devia estar indo pra formação. A conta sempre cai em cima de quem menos pode pagar.
E o cenário que se desenha é bizarro: Fair Play Financeiro, Transfer Ban, recuperação judicial, corrida por SAF — o Brasileirão virando uma disputa de quem aguenta mais tempo sem quebrar. Quem gasta mais do que pode, disputa o mesmo mercado de quem tenta manter a casa em ordem, e por um tempo os dois seguem lado a lado, como se fosse tudo normal. Até que a conta chega. E quando chega, pode não sobrar dinheiro nenhum pra pagar.
3. E a base?
E aí fecha o ciclo da irresponsabilidade: a CBF quer mais espaço pro jovem, só que ninguém quer pagar pra formar esse jovem direito. Formar jogador custa — estrutura, alimentação, educação, preparação física, equipamento, viagem, competição. Base não é fábrica pra tapar buraco no elenco profissional. É investimento, e investimento dá trabalho.
A CBF podia estar discutindo padronização de modelo de base, incentivo de verdade, infraestrutura de CT, gramado decente — como tornar o produto competitivo por mérito. Escolheu o caminho mais fácil e mais raso.
Talvez eu esteja errado. Sinceramente espero estar. Mas juntando tudo, a sequência que eu enxergo é essa:
- Clubes sem dinheiro ✓
- Vendas massivas pra Europa pra pagar conta ✓
- Inflação do jogador brasileiro no mercado interno ✓
- Fair Play Financeiro pesando cada vez mais ✓
- Receita das bets sumindo de uma vez ✓
- Menos estrangeiro no Brasileirão ✓
- Mais pressão pra usar jovem despreparado ✓
- Base sem dinheiro pra dar conta do recado ✓
- Nível caindo, e ninguém segurando a queda ✓
Como Palmeirense, sou provavelmente um dos torcedores que menos vai sofrer nessa história — time organizado, com grana, com base forte. Mas o Palmeiras não joga sozinho. Se o futebol brasileiro perder qualidade, não é só o rival que sofre. Sofre o campeonato inteiro. E se essa previsão se confirmar, quem sofre é o próprio futebol brasileiro tentando sobreviver ao próprio governo, aos próprios dirigentes e à própria incompetência de resolver os problemas na raiz.
Fontes
- Mudança da CBF nos estrangeiros (21/09/2026): CBF.com.br (nota oficial), CNN Brasil, Migalhas
- Idade média da Série A (27,3 → 28,5 anos): estudo da CBF Academy, divulgado no comunicado oficial da CBF
- Dívida geral da Série A (R$ 17,3 bi contra R$ 14,3 bi de receita): Relatório Convocados 2026 (OutField/Galapagos Capital), via Lance!
- Corinthians (dívida de R$ 2,7 bi, déficit de R$ 143,4 mi): CNN Brasil, Exame
- Vasco (dívida de R$ 1,3 bi, acordo de R$ 3,1 bi): NETVASCO, Terra
- São Paulo (dívida de R$ 858 mi, superávit de R$ 56 mi): Lance!, Terra
- Patrocínio das bets na Série A (R$ 1,03 bi, +66%): levantamento Convocados, via Notícias ao Minuto / TVT News
- Contrato Flamengo–Betano (R$ 268 mi/ano): mesmo levantamento Convocados
- Contrato Corinthians–Esportes da Sorte (R$ 150 mi, até R$ 200 mi): CNN Brasil, Gazeta Esportiva
- MP do governo sobre as bets: Forbes, O Tempo







